sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Manhã de Sol




É manhã. Manhã de sol.
Choveu ontem. Choveu nos vários antes de ontem.
Chuva boa, generosa, forte. Chuva com ventos, relâmpagos e trovoadas.
Aguaceiro em fartura para molhar tudo.
Mas hoje é manhã brilhante de sol.
Quero comer esta manhã.
Só por hoje comer esta manhã.
Engolir o brilho reflexo da superfície lisinha das folhas.
E amar.
Um amor antropofágico que mastiga e engole pássaros que miram em voos rasantes e atravessam esse corpo faminto de manhãs de sol.
Comer lagartixas em contrição dizendo sim.
Comer pares de borboletas dançarinas em garfadas de alegria.
Quero comer sozinha, egoísta e malvada os trezentos e sessenta graus dessa manhã tão clarinha e doce como só uma manhã de sol consegue.
Uma manhã que dura as vinte e quatro horas da tarde e da noite.
Amanhã... 
Amanhã pode chover.


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