segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Os Bons




Os bons da casa morreram.
Só ficaram uns poucos cumprindo suas lástimas.

Primeiro foi o Janjão.
Deixou a bicicleta e a bainha do facão.
Deixou a mulher prenha de filho louco e um buraco aberto perto do curral.
Caiu uma vaca no buraco que ele abriu.
Ficou amaldiçoado.

Depois morreu a Angélica.
Coitada.
Queria casar nem que fosse com rapaz interesseiro.
Era torta e pensativa.
Pensava onde havia esquecido a chave.
Pensava como seria o dia de amanhã. Pensava.
Casou. Ficou feliz. Prenhou.
Em seguida morreu deixando herança perdida de filho morto.
Não se sabe se foi consagrada.

Tempos depois morreu a Santa.
Santinha.
Saudade do ovo frito cobrindo o arroz com feijão que a Santa fazia.
Café com açúcar, quentinho.
E sempre aparecia um dinheirinho para outras misturas.
Das irmãs era a mais querida.
Ninguém deixava que falassem mal dela.
Morreu com o peito cheio demais e apodrecido.
Mas acho que ela já nasceu morta.
Era doentinha.
Doença de pulmão. De coração. De depressão.
Sem contar que sofria dos males de casamento infeliz.
Sorria para esconder a ferida aberta na alma.
Agora está lá na cova visitada... a Santa abençoada.
Tão boa!
Deixou a bondade, mas a bondade acabrunhou e quase morreu.
Volta Santinha.

Hoje o caçula morreu.
Mas ele não sabe que está morto.
Maldoso, doente e só... afoga a dor no álcool nosso de cada dia.
Perambula por caminhos sombrios colhendo migalhas.
Pensando que está vivo só porque fica a tombar na sina do besouro rola bosta.
Tadinho!
Aguarda justiça e perdão.

Volta Santinha.
Vem salvar.

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